Flávia Ávila conta tudo sobre o 1º guia nacional de Economia Comportamental

16 outubro, 2015

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É com muito prazer que venho hoje publicar uma entrevista feita com a Flávia Ávila, pesquisadora e professora de Economia Comportamental. A Flávia está coordenando o lançamento do 1º Guia de Economia Comportamental em português, que reunirá diversos artigos sobre o tema, assinados por renomados pesquisadores nacionais e internacionais. Quem realizou esta entrevista superbacana e autorizou sua divulgação aqui no blog foi a jornalista Naiara Bertão, do Guia Bolso. Muito obrigada, Naiara!

Vale lembrar que o guia está sendo financiado por meio de crowdfunding, então, se você se interessar pelo projeto e desejar contribuir com sua viabilização, saiba que sua ajuda é mais que benvinda! O prazo para contribuir, no entanto, expira hoje, então, corra!! rs (Clique aqui para colaborar) 🙂

– Como surgiu a ideia de criação do projeto?

Sou uma apaixonada pelo tema há quase dez anos. Trabalhava antes na área privada e tive uma oportunidade muito legal de desenhar e coordenar 13 experimentos de campo desde 2005, alguns com mais de 3 milhões de sujeitos.  Os resultados eram incríveis. Como experimentos são a principal metodologia usada na área, em 2011 decidi largar tudo e ir estudar o tema de forma mais profunda e metodológica na Inglaterra.

Voltei recentemente do mestrado em Economia Comportamental no CeDEx group (Centre for Decision Research and Experimental Economics) – um dos principais centros na Europa atualmente na área,  tendo um foco mais experimental. Durante os quase dois anos que estive lá, o assunto estava sendo discutido amplamente nos centros educacionais, nas universidades, em conferências, na mídia e, principalmente, no setor público. Ao retornar ao Brasil, tive contato com líderes no setor público, privado e terceiro setor e fiquei impressionada com o fato do tema ainda ser praticamente desconhecido por aqui.

Com o aumento exponencial da repercussão da Economia Comportamental no mundo todo e de pessoas procurando cada vez mais informações e materiais sobre o assunto, a ideia surgiu principalmente por três fatores: 1) a inexistência de referências em português para indicar em cursos e palestras para alunos, executivos e empresas interessadas em aprofundar na área, 2) a visível falta de conhecimento das empresas e do governo sobre um tema tão presente lá fora, tão aplicado e importante nas mais diversas esferas e 3) a pouca divulgação pela mídia brasileira para incitar a curiosidade das pessoas pelo tema.

– Quem foram os idealizadores?

Desde a minha volta, tinha vontade de fazer algo assim. Percebi que os alunos acabavam não lendo os materiais em inglês e custavam a assimilar conceitos (muitos até então nem tinham tradução equivalente em português).  Assim, surgiu a ideia do site EconomiaComportamental.org, criado no ano passado apenas para divulgar a área. Com essa motivação também, surgiu a ideia de que uma boa opção seria traduzir algo já publicado lá fora, editando e adicionando capítulos de professores daqui. Tudo começou a 4-5 meses atrás. Contatei o editor do BE Guide 2014 e 2015 e alguns autores internacionais para ver se comprariam a ideia e autorizariam fazermos essa tradução de materiais já pré-existentes. Eles toparam, e assim, surgiu o projeto. Idealizei e desenhei a proposta, porém ele nunca teria se concretizado sem o suporte de colegas e professores que admiro muito, como Ana Maria Bianchi, Roberta Muramatsu, Marcos Avila, Carol Trousdell e Felipe Araújo. O projeto começou assim, algo pequeno, e tomou proporções muito maiores do que imaginamos inicialmente.

– Poderia falar dos autores que participam do Guia?

Como a ideia do livro é trazer uma visão abrangente, aplicada e crítica, ele contará com artigos e entrevistas de professores internacionais que são as principais referências no tema, como: George Loewenstein (CMU), Cass Sunstein (Harvard), John List (Uni Chicago), Richard Thaler (Uni Chicago), Scholomo Benartzi (UCLA), Dean Karlan (Yale), Ravi Dhar (Yale),  Paul Dolan (LSE), entre outros. Mais ainda, trará contribuições de líderes do Banco Mundial e capítulos de especialistas brasileiros (FEA-USP, Coppead-UFRJ, UnB, Insper, Mackenzie, entre outros).

– Qual a importância de disseminar conhecimentos da área de Economia Comportamental no Brasil?

A Economia Comportamental abrange inúmeras questões do nosso dia-a-dia, afinal, tomamos decisões a todo momento. E ao estudar mais a fundo o ser humano, seus estudos e aplicações podem melhorar as nossa escolhas nas mais diversas esferas. A Economia Comportamental estuda as influências cognitivas, sociais e emocionais que influenciam na nossa decisão. Seja no contexto de compras ou para promover mudanças que possam gerar bem-estar, saúde e tranquilidade financeira, os estudos da Economia Comportamental movem o nosso olhar para detalhes antes desconsiderados. Quando surge um problema, muitas vezes pensamos em soluções grandiosas, mas, frequentemente, os resultados desejados podem ser atingidos por meio de mudanças nos pequenos detalhes.

Por muitos anos, os economistas consideravam que entrar no nível de detalhes da psicologia atrapalharia mais que ajudaria. Viraria um balaio de gato de onde não se poderia tirar conclusão alguma. No entanto, nos últimos anos seus estudos têm mostrado que mesmo com as imensas diferenças encontradas entre indivíduos, cometemos diariamente erros sistemáticos e previsíveis. E mais: nossas decisões são muito menos racionais, deliberativas, lineares e conscientes do que gostaríamos de acreditar. Um dos pontos chaves da Economia Comportamental é utilizar experimentos controlados, a neurociência, entre outros métodos empíricos, para testar e medir quais, como e quanto fatores psicológicos, sociais e pequenas nuances que afetam uma determinada tomada de decisão.

Nosso objetivo é difundir a área e suas metodologias no Brasil, pois acreditamos que o país ainda tem muito a se beneficiar com seus estudos e aplicações, em todas as esferas.

– Como poderíamos ressaltar a importância do estudo da Economia Comportamental nos dias de hoje?

As implicações da EC são abrangentes, e suas ideias vêm sendo aplicadas a várias esferas no mundo todo do setor privado à formulação de políticas públicas. Seus estudos são aplicados a diversas áreas: finanças, saúde, energia, desenvolvimento, educação e marketing de consumo. Em 2010, o governo do Reino Unido montou o “Behavioural Insights Team” (BIT), uma unidade especial dedicada a aplicar a ciência comportamental à política e serviços públicos. Em 2013 veio a notícia de que o governo americano estava formando uma equipe de nudge nessa mesma linha. Sua dimensão tem sido tamanha que no último dia 15 de setembro, direto da Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, publicou um decreto que institui a ciência comportamental como diretriz para políticas públicas e gestão governamental. A popularidade da EC e das ciências comportamentais de modo geral ampliou a caixa de ferramentas conceituais dos profissionais da área no mercado, incentivou pesquisas que investigam o comportamento real e começou a favorecer uma cultura de “testar e aprender” entre os governos e as empresas. Quando se pede à EC que lide com questões práticas, é indispensável fazer experimentos antes de intervenções práticas.

– Há dados concretos de como a Economia Comportamental ajuda nas finanças pessoais?

Existem muitos estudos sendo desenvolvidos nessa área. Um dos temas que será abordado em detalhe no Guia pelos professores Richard Thaler (University of Chicago), Scholomo Bernartzi (UCLA) e Dean Karlan (Yale University), as maiores referências no assunto atualmente, é a opção de investimentos programados e dispositivos de comprometimento. Ou seja, hoje estou consciente da necessidade de me preocupar com meu futuro. Logo, ciente dos meus pontos fracos, opto por uma aplicação programada de poupança (todo mês o dinheiro sai automaticamente da minha conta, no dia que recebo o salário e vai direto para a aplicação).

Um programa mais sofisticado foi idealizado pelos professores Thaler e Benartzi, chamado Save More Tomorrow (SMarT). Nesse programa eles propõem que a empresa ofereça para os funcionários um produto de poupança privada no qual ele pode decidir em um período x começar a poupar em uma data futura. Mais ainda, quando receber um aumento de salário (evitando a dor da perda). Além disso, depois que aderir ao programa o percentual de contribuição irá aumentar sempre a cada aumento de salário (considerando nossa propensão a inércia). E o resultado foi incrível. No Guia, os professores Thaler e Benartzi abordarão essas e outras pesquisas na área de aposentadoria.

Já o professor  Dean Karlan (Yale University) dará um panorama sobre o uso de dispositivos de comprometimento em países em desenvolvimento e abordará também o programa Save More Tomorrow (SMarT) acima, falando de alguns de seus resultados.

Além do SMarT, podemos citar alguns casos já bastante conhecidos na área, como o aumento de “adesões” aos planos 401k (plano de previdência utilizado nos Estados Unidos) ao mudar apenas a opção padrão (default option) no formulário de adesão do programa. Em vez dos empregados terem de marcar uma opção para aderir ao plano, eles deveriam marcar caso não o quisessem, ou seja, a adesão passou a ser automática a menos que o empregado declarasse expressamente que não queria. Isso fez com que a poupança decorrente dessa previdência aumentasse em 40%.  O professor Cass Sunstein, co-autor do livro Nudge (2008) com o professor Richard Thaler, irá mostrar alguns desses resultados e discutir melhor a importância de trabalhar a opção padrão em diversas políticas públicas.

Esses são apenas dois exemplos simples, de experimentos e estudos empíricos que nos ajudam a entender melhor como conceitos aplicados da Economia Comportamental podem nos ajudar a tomar decisão melhores considerando o nosso futuro incerto.

– Como o Banco Mundial está trabalhando o assunto?

Um dos grandes marcos para área, que com certeza ficará registrado como momento chave para a sua ascensão, foi a publicação neste ano pelo Banco Mundial do World Development Report  2015, focado na área e seus estudos experimentais. O relatório intitulado “Mind, Society and Behavior” revê desenvolvimentos recentes e intrigantes sobre formas de diagnosticar e considerar vieses psicológicos, cognitivos, e sociais na construção de políticas de desenvolvimento econômico. E enfatiza alguns fatores-chave para que estas políticas sejam mais efetivas. No Guia, o coordenador e responsável pelo relatório, Varun Gauri, dará uma entrevista longa e didática do impacto da área no próprio Banco Mundial, em suas pesquisas e principais insights dos estudos no relatório. Teremos também uma síntese sobre os principais pontos do relatório, que está disponível online em: Mente, Sociedade e Comportamento

– O guia já tem data para ser lançado?

O guia está sendo viabilizado por patrocinadores e apoiadores que gostariam de vincular sua escola, instituto e empresa a esse campo de estudo, como Coppead/UFRJ, Itaú, FEA-USP, IBCPF, London School and Economics, University of Warwick, entre outros. Não tendo como foco direto a geração de receita, a edição está sendo concebida também via financiamento coletivo (crowdfunding) no Benfeitoria (https://beta.benfeitoria.com/guiaece). O lançamento será no dia 23 de novembro, na Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Mas todo o material será disponibilizado gratuitamente em PDF na web e em versões impressas para os autores nacionais e internacionais, líderes no setor público e privado, universidades e bibliotecas.

Entrevista: Naiara Bertão – Guia Bolso

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